Normalmente, no início de cada ano, escrevo um artigo para traduzir o momento que estamos vivendo na ABELV. É uma forma de organizar aprendizados, dividir reflexões e registrar pontos de inflexão que ajudam a orientar o próximo ciclo.
No ano passado, esse exercício foi especialmente marcante. Ao escrever sobre Cultura, Missão, Visão e Valores após mais um ciclo do Líderes em Ação, ficou claro que nossa cultura estava viva e era ela que nos sustentava, inclusive nos momentos mais difíceis. Saí daquele processo tranquilo. O texto fazia sentido. A empresa se reconhecia nele. Eu também. Naquele momento, estava convicto de que a cultura que construímos tinha força suficiente para nos sustentar por mais tempo.
Essa convicção foi colocada em perspectiva durante a construção do Planejamento Estratégico 2025. Na análise SWOT da área comercial, executivos experientes que convivem conosco no dia a dia trouxeram uma provocação direta e honesta:
“O mercado não conhece a ABELV que a gente vive aqui dentro.”
Aquilo não era uma crítica. Era uma constatação. Havia muito mais coisa boa acontecendo dentro da ABELV do que aquilo que conseguíamos tornar visível para quem ainda não nos conhecia. Para quem já tinha vivido a ABELV, a percepção era clara. Clientes, parceiros e profissionais que trabalharam conosco sabiam quem éramos. O ponto estava em quem ainda não tinha tido esse contato.
A leitura inicial foi pensar em fortalecer a marca, torná-la mais visível. Um caminho natural. Mas, à medida que avançávamos, essa leitura começou a mudar. A marca que queríamos mostrar não precisava ser construída. Ela já existia. Estava na forma como entregamos, decidimos e sustentamos relações ao longo do tempo.
Em algum momento, ficou claro que não se tratava de fortalecer algo frágil. Tratava-se de revelar algo sólido. Tirar o peso de criar algo novo e assumir a responsabilidade de tornar visível aquilo que já estava vivo.
Foi nesse ponto que a reflexão avançou para o próximo estágio da relação entre cultura e estratégia descrita por Peter Drucker. A cultura da ABELV havia se tornado marca. E, quando isso acontece, a marca deixa de ser consequência e passa a puxar a estratégia. Não por discurso, mas por coerência. Foi a partir daí que a coerência passou a exigir alguns ajustes.
PREVISIBILIDADE COM RESPONSABILIDADE
O primeiro ajuste veio na forma como passamos a nomear nosso compromisso central. Ao tornar a marca explícita, ficou claro que previsibilidade não era apenas uma consequência desejável do nosso trabalho. Ela já fazia parte daquilo que entregávamos. Planejamento consistente, decisões bem tratadas, risco antecipado e execução disciplinada sempre estiveram presentes. O que mudou foi a consciência sobre isso.
Mas previsibilidade, sozinha, não nos representava por completo. Ela precisava vir acompanhada de responsabilidade. Responsabilidade com pessoas, com segurança, com prazos, com decisões técnicas e com o impacto que cada escolha gera ao longo do tempo. Não se trata de prometer controle absoluto, mas de assumir, de forma madura, o que está sob nossa gestão em contextos de alta complexidade.
Esse ajuste não criou um novo direcionamento, apenas deu nome ao que já era prática. Passou a deixar claro, para dentro e para fora, que previsibilidade, para a ABELV, não é rigidez, mas compromisso, e que responsabilidade não funciona como freio, e sim como sustentação.
CONFIANÇA COMO EIXO DA VISÃO
Ao revisitar a visão, ficou claro que não estávamos escolhendo um novo norte. A confiança sempre esteve no centro da forma como a ABELV se relaciona com seus clientes. Ela nos orientou nas decisões difíceis, sustentou relações de longo prazo e foi percebida com clareza por quem já conviveu de perto conosco.
O ajuste, portanto, não foi de ambição, mas de consciência. Tornar a confiança explícita na visão significou reconhecer aquilo que já nos guiava na prática. Clientes que nos conhecem bem sabem disso. São eles que buscam estar cada vez mais próximos, que confiam decisões críticas e que escolhem construir relações duradouras justamente pela previsibilidade, pela transparência e pela responsabilidade com que tratamos cada entrega.
Ao assumir a confiança como eixo da visão, deixamos claro que esse é o tipo de relação que queremos fortalecer no futuro. Não se trata de crescer a qualquer custo, mas de aprofundar vínculos com quem compartilha da mesma forma de operar. Confiança, para nós, não é promessa nem discurso. É consequência direta de consistência, método e postura ao longo do tempo.
Esse ajuste ajudou a alinhar expectativa e identidade. A visão passou a refletir, com mais precisão, o que já era percebido por quem nos conhece: uma empresa em que previsibilidade gera confiança, e confiança gera proximidade.
EVOLUÇÃO CONTÍNUA COMO VALOR VIVIDO
O terceiro ajuste apareceu nos valores, especialmente na forma como, há algum tempo, escolhemos viver a evolução contínua aqui dentro. Para a ABELV, ela nunca foi um discurso aspiracional. Foi uma exigência da realidade. Os últimos anos nos colocaram diante de cenários que pediram adaptação constante, revisão de processos e desenvolvimento consistente de pessoas.
Com o tempo, essa adaptação deixou de ser apenas reativa e passou a ser uma escolha consciente. Evoluir passou a significar aprender com a própria experiência, transformar aprendizados em método e sustentar melhorias de forma contínua. Pessoas evoluíram dentro dos processos, e os processos evoluíram a partir da prática real, criando um ciclo virtuoso entre campo, sede e liderança.
Hoje, a evolução contínua se manifesta quando lideranças amadurecem ao longo dos ciclos, quando o desenvolvimento deixa de ser pontual e passa a ser parte da rotina, e quando a empresa consegue transformar vivência em padrão. A integração entre áreas, o fortalecimento da governança e a disciplina na execução mostram que evoluir não é mudar o tempo todo, mas seguir melhor a cada etapa.
Ao explicitar esse valor, deixamos claro que crescimento não vem de improviso. Ele nasce da consistência, do aprendizado acumulado e da capacidade de sustentar decisões ao longo do tempo. Evoluir, para a ABELV, é seguir avançando, aprendendo com a própria experiência e mantendo coerência.
RESILIÊNCIA AO LADO DA DETERMINAÇÃO
O último ajuste apareceu nos valores de forma quase silenciosa, mas muito reveladora. Determinação sempre fez parte da nossa identidade. Sempre esteve associada à forma como enfrentamos desafios, assumimos responsabilidades e seguimos em frente mesmo quando o caminho não é simples. Ela é visível, reconhecida e, de certa forma, esperada.
O que amadureceu foi a compreensão de que determinação, sozinha, não sustenta ciclos longos. Foi a resiliência que ganhou espaço ao lado dela. Não como resistência passiva, mas como capacidade ativa de atravessar períodos difíceis, absorver impactos, ajustar rotas e seguir em frente. Resiliência como força que sustenta.
Esse valor se consolidou na prática, ao longo de anos desafiadores. Em decisões difíceis, em momentos de pressão real e na capacidade de manter coerência mesmo quando o cenário exigia mais do que força de vontade. Foi nesse contexto que ficou claro que avançar exige mais do que intensidade. Exige constância.
Resiliência e determinação, juntas, passaram a representar melhor quem nos tornamos. A combinação entre seguir em frente e saber sustentar o caminho. Entre avançar com convicção e permanecer firme quando o ambiente testa limites. Esse equilíbrio reflete não apenas escolhas individuais, mas a complementaridade que se construiu na liderança e que se espalhou pela empresa.
Ao explicitar esse valor, fechamos um ciclo importante. Não para concluir uma jornada, mas para dar nome ao estágio em que estamos. Uma empresa que aprendeu a crescer sem perder essência, a evoluir sem improvisar e a sustentar decisões com responsabilidade ao longo do tempo.
No fim, a marca que hoje se revela é consequência direta dessas escolhas. Quando a marca puxa a estratégia, o papel da liderança deixa de ser criar narrativas e passa a ser manter coerência. É isso que seguimos fazendo.

